Página Inicial Mapa do Site FAQ Diminuir o tamanho da fonte Resturar o tamanho da fonte Aumentar o tamanho da fonte Versão em contraste Versão normal Buscar
Pol > Em Debate > Ações do CFP > Democratização das Comunicações >
Imprimir Enviar RSS
22.02.2005
Um não à baixaria!

No último dia 17 de outubro, a sociedade civil e a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal promoveram o Dia Nacional contra a Baixaria na TV. O dia, que permitiu uma redução de pelo menos 14 pontos percentuais na audiência das emissoras comerciais na Grande São Paulo, já pode ser visto como um marco na história da televisão brasileira, embora as emissoras comerciais esperneiem em minimizar a importância do momento e contra-alardear que “se está querendo fazer censura” nos meios de comunicação.

Ainda que o argumento seja bem planejado, é uma falácia. O que os movimentos sociais têm buscado não é o fantasma da censura à televisão, mas o controle social. O movimento cresce de um nascedouro que é a própria sociedade civil organizada, alvo das emissoras de televisão, estas concessões públicas, mas que, em nosso país, ganham ares de empresas privadas, meramente comerciais, veiculando o que querem, da forma como querem. E ainda cometem o descalabro de afirmar que se baixaria dá Ibope é porque o povo gosta.

Não, o povo não gosta de baixaria, e quando a própria sociedade civil começa a se organizar, em busca de um regramento ético para as televisões brasileiras, é porque chegou a hora de conter o excesso. Não gostamos desse mundo cão que vem sendo colocado dentro das nossas casas para nos impactar, mas ficamos de tal forma espantados e horrorizados com o que é apresentado que não conseguimos sair da frente do aparelho. Afinal, o que excede captura, deixa o sujeito sem recursos para reagir.

A civilização é o contraponto ao estado de natureza. No estado de natureza, o homem bruto tem a violência como forma única de conseguir responder ao perigo do estado natural para atingir um quantum de satisfação da necessidade. A civilização, então, é um recurso inventado pela humanidade para enfrentar os perigos que vinham da própria natureza humana. Por isso, renunciamos à barbárie, sacrificando parte de nossas pulsões, e passamos a respeitar a dimensão do outro. Em vez do matar ou morrer, temos o pacto civilizatório, oferecendo a lei e civilizando as pulsões. Para quem desrespeita o pacto, a sanção.

A agressividade, porém, faz parte da nossa natureza. Então, como fizemos um pacto, exige-se orientar o caminho das pulsões dentro do trilho consentido pelas normas da civilidade. Nesse contexto, quando um programa de televisão nos mostra uma cena bárbara, que nos prende de tal forma que não conseguimos fugir (e dá Ibope!), é porque consegue, nesse momento, à revelia do público, a suspensão do recalque civilizatório. É como se, por um instante, a barbárie fosse de novo consentida. Pode ser mostrada como expressão de uma possibilidade para a qual não há sanção. Quando as cenas apresentadas na televisão banalizam o pacto social e invadem nossa casa, provocam a manifestação dos sentidos arcaicos que, milenarmente, a humanidade empreende esforços para recalcar.

E gostamos disso? Não, não gostamos dessa baixaria. Somos capturados por ela. Por isso não mudamos de canal. A banalização da violência, da sexualidade e da própria vida ganha audiência porque nos fala de algo da nossa natureza humana que deveria estar recalcado, e não exposto num canal aberto. É preciso pôr um basta nessa compulsão pela audiência a qualquer custo, que desrespeita o cidadão e a civilização.

Se bem pensadas e planejadas, as programações das televisões são fundamentais para a transmissão de valores, normas e cultura. Queremos a concretização de um projeto que seja plural e participativo, fonte de possibilidades, informações, entretenimento com qualidade, que possa efetivamente contribuir para se viver melhor.

Destaque

“Não gostamos desse mundo cão que vem sendo colocado dentro das nossas casas para nos impactar.”

“O que os movimentos sociais têm buscado não é o fantasma da censura à televisão, mas o controle social.”

“Quando a própria sociedade civil começa a se organizar, em busca de um regramento ético para as televisões brasileiras, é porque chegou a hora de conter o excesso.”

“A banalização da violência, da sexualidade e da própria vida ganha audiência porque nos fala de algo da nossa natureza humana que deveria estar recalcado, e não exposto num canal aberto.”

Crédito: RICARDO F. MORETZSOHN
Fonte: Revista Família Cristã – Seção / Cultura – Fevereiro / 2005
 



Divulgação

Não há conteúdo relacionado a este objeto...
Palavra-chave:

Imprimir Enviar RSS

04.03.11 - Relatório de Acompanhamento de Proposições em Tramitação no Congresso Nacional Relatório de acompanhamento de proposições em tramitação no Congresso Nacional - Conselho Federal de Psicologia - Fevereiro de 2011.
13.02.09 - Relatório de Acompanhamento de Proposições em Tramitação no Congresso Nacional Relatório de Acompanhamento de Proposições em Tramitação no Congresso Nacional - Conselho Federal de Psicologia - Janeiro de 2009.
06.12.10 - Relatório de Acompanhamento de Proposições em Tramitação no Congresso Nacional Relatório de acompanhamento de proposições em tramitação no Congresso Nacional - Conselho Federal de Psicologia - Dezembro de 2010.
17.11.10 - Publicação - FALANDO SÉRIO sobre prisões, prevenção e segurança pública

1
/pol/cms/pol/debates/acoes_do_cfp/democratizacao_comunic/.org.br
22.02.2005
Um não à baixaria!

No último dia 17 de outubro, a sociedade civil e a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal promoveram o Dia Nacional contra a Baixaria na TV. O dia, que permitiu uma redução de pelo menos 14 pontos percentuais na audiência das emissoras comerciais na Grande São Paulo, já pode ser visto como um marco na história da televisão brasileira, embora as emissoras comerciais esperneiem em minimizar a importância do momento e contra-alardear que “se está querendo fazer censura” nos meios de comunicação.

Ainda que o argumento seja bem planejado, é uma falácia. O que os movimentos sociais têm buscado não é o fantasma da censura à televisão, mas o controle social. O movimento cresce de um nascedouro que é a própria sociedade civil organizada, alvo das emissoras de televisão, estas concessões públicas, mas que, em nosso país, ganham ares de empresas privadas, meramente comerciais, veiculando o que querem, da forma como querem. E ainda cometem o descalabro de afirmar que se baixaria dá Ibope é porque o povo gosta.

Não, o povo não gosta de baixaria, e quando a própria sociedade civil começa a se organizar, em busca de um regramento ético para as televisões brasileiras, é porque chegou a hora de conter o excesso. Não gostamos desse mundo cão que vem sendo colocado dentro das nossas casas para nos impactar, mas ficamos de tal forma espantados e horrorizados com o que é apresentado que não conseguimos sair da frente do aparelho. Afinal, o que excede captura, deixa o sujeito sem recursos para reagir.

A civilização é o contraponto ao estado de natureza. No estado de natureza, o homem bruto tem a violência como forma única de conseguir responder ao perigo do estado natural para atingir um quantum de satisfação da necessidade. A civilização, então, é um recurso inventado pela humanidade para enfrentar os perigos que vinham da própria natureza humana. Por isso, renunciamos à barbárie, sacrificando parte de nossas pulsões, e passamos a respeitar a dimensão do outro. Em vez do matar ou morrer, temos o pacto civilizatório, oferecendo a lei e civilizando as pulsões. Para quem desrespeita o pacto, a sanção.

A agressividade, porém, faz parte da nossa natureza. Então, como fizemos um pacto, exige-se orientar o caminho das pulsões dentro do trilho consentido pelas normas da civilidade. Nesse contexto, quando um programa de televisão nos mostra uma cena bárbara, que nos prende de tal forma que não conseguimos fugir (e dá Ibope!), é porque consegue, nesse momento, à revelia do público, a suspensão do recalque civilizatório. É como se, por um instante, a barbárie fosse de novo consentida. Pode ser mostrada como expressão de uma possibilidade para a qual não há sanção. Quando as cenas apresentadas na televisão banalizam o pacto social e invadem nossa casa, provocam a manifestação dos sentidos arcaicos que, milenarmente, a humanidade empreende esforços para recalcar.

E gostamos disso? Não, não gostamos dessa baixaria. Somos capturados por ela. Por isso não mudamos de canal. A banalização da violência, da sexualidade e da própria vida ganha audiência porque nos fala de algo da nossa natureza humana que deveria estar recalcado, e não exposto num canal aberto. É preciso pôr um basta nessa compulsão pela audiência a qualquer custo, que desrespeita o cidadão e a civilização.

Se bem pensadas e planejadas, as programações das televisões são fundamentais para a transmissão de valores, normas e cultura. Queremos a concretização de um projeto que seja plural e participativo, fonte de possibilidades, informações, entretenimento com qualidade, que possa efetivamente contribuir para se viver melhor.

Destaque

“Não gostamos desse mundo cão que vem sendo colocado dentro das nossas casas para nos impactar.”

“O que os movimentos sociais têm buscado não é o fantasma da censura à televisão, mas o controle social.”

“Quando a própria sociedade civil começa a se organizar, em busca de um regramento ético para as televisões brasileiras, é porque chegou a hora de conter o excesso.”

“A banalização da violência, da sexualidade e da própria vida ganha audiência porque nos fala de algo da nossa natureza humana que deveria estar recalcado, e não exposto num canal aberto.”

Crédito: RICARDO F. MORETZSOHN
Fonte: Revista Família Cristã – Seção / Cultura – Fevereiro / 2005
 

Imprimir     Fechar